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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Muçulmanas do Mali: Não Usavam Roupas e Eram Muito Liberais

Entre 1352-1353, o viajante Ibn Battuta acompanhou uma caravana de comerciantes desde a cidade de Sijilmassa, no Marrocos, até a capital do império do Mali, ali permanecendo durante oito meses. As informações sobre a viagem e a estadia foram registradas na Rihla, o relato de suas memórias, composto, em 1356, pelo escriba Ibn Yuzayy. Trata-se do único depoimento escrito, anterior ao século XV, sobre as particularidades históricas de um dos mais poderosos Estados da savana africana. Nele o viajante descreve aspectos da paisagem natural, das formas de organização política e social e, sobretudo, dos costumes e das crenças religiosas.

Já na primeira cidade que integrava os domínios do Mali, Iwalatan, a “falta de pudor” das mulheres e seu descumprimento do uso do véu chamou a atenção do visitante. Além disso, com a conivência dos maridos, elas entregavam-se a outros homens, algo que o deixou perplexo: “vi isto no mundo apenas entre os pagãos do país de Malabar, junto aos indianos. Mas eles são muçulmanos, são aplicados nas orações, estudam a fiqh e aprendem o Alcorão!”


Escultura de uma mulher do Mali

Embora o estranhamento seja expresso em termos religiosos, há algo mais a ser considerado. O que está em causa, também, são diferenças na forma de organização social. Em Iwalatan, antes de descrever os hábitos “libertinos” dos homens e mulheres casadas, Battuta indica um dado curioso sobre a forma de organização familiar: os homens não reconheciam sua ascendência no pai, mas no tio materno. Tratava-se, pois, de um tipo de sucessão familiar avuncular, na qual a figura da mãe desempenhava papel social mais importante que a figura paterna. No caminho de retorno ao Marrocos, admirou-se com o fato de que, entre os povos Bardama, no Deserto do Saara, as mulheres gozavam de notável prestígio e detinham posições de liderança. Por fim, na própria capital do Mali, estranhou que a primeira esposa do “sultão”, designada pelo título de kasa, estivesse associada a ele no governo e desfrutasse efetivamente de poder. Ele chega a descrever uma tentativa de rebelião dela contra o marido. Todos estes indícios nos levam a pensar o quanto, para o narrador, que pertencia a uma sociedade poligâmica, patriarcal e de sucessão patrilinear do Marrocos, pareciam incompreensíveis e mesmo inaceitáveis comportamentos associados a sociedades como as dos sudaneses, em que a presença de traços matriarcais se fazia sentir e a linha de sucessão patrilinear convivia com outras formas de sucessão, como a avuncular e mesmo a matrilinear. O papel de destaque das mulheres nas antigas sociedades africanas foi, aliás, um dos pontos recorrentes que chamou a atenção de antropólogos e historiadores e que aguarda estudos mais pormenorizados.

Uma Viagem ao Império do Mali no Século XIV: O Testemunho da Rihla de IBN Battuta (1352-1353) Por 
José Rivair Macedo e Roberta Pôrto Marques



"As criadas, as escravas e as jovens andam nuas na frente de todos. As mulheres entram nuas na presença do sultão sem qualquer cobertura, e suas filhas também andam nuas."

Ibn Battuta, Travels in Asia and Africa 1325-1354, tr. and ed. H. A. R. Gibb (London: Broadway House, 1929)


Nas relações familiares e na condição de vida da mulheres, encontramos diversas exaltações. Em Ualata, por exemplo, Ibn Battuta se espanta que os homens não tem ciúmes de suas mulheres, e que os sobrenomes não derivam do pai, mas sim dos tios paternos. Assim como, para ele, não seria concebível que mulheres tivessem amigos, como ocorre na visita à casa de Abu Yankadan, um massufi:
“(...) Perguntei ao dono da casa: ‘Quem é essa mulher?'. E ele respondeu: ‘É minha esposa’. Disse-lhe: ‘E que relação ela tem com o homem que a acompanha?’. E ele respondeu: ‘É seu amigo’. E eu: ‘E está satisfeito com tal coisa, tu, que já viveu em nossas terras e conhece a lei de  Deus?’. E ele: ‘Entre nós, a amizade entre homens e mulheres é bem vista e não tem nada de suspeito. Além disso, nossas mulheres não são como as suas’. Fiquei espantado com a sua conivência, tanto que sai da casa e nunca mais voltei mesmo ele tendo me convidado várias vezes.”
Ibn Battuta em “Os costumes de Ualata”, fala sobre as mulheres mussafis, as quais “não demonstram nenhum pudor na frente dos homens nem usam o véu, embora sejam assíduas nas orações.” Indigna-se com a possibilidade de, mesmo as mulheres sendo religiosas e seguindo o Corão, não usarem véu como o corão propõem (estas mesmas são aquelas que tem amizades com homens que não são da família). Em relação às “Virtudes e defeitos dos sudaneses”, além de as mulheres e suas filhas não usarem véu no rosto frente ao sultão, ainda “ficam sem roupa alguma”. E, além disso, escravas e meninas apareçam em público nuas, “com suas vergonhas à mostra”. 

Diferenças e preconceitos no islamismo africano: uma análise de relatos de Ibn Battuta Por Teane Mundstock Jahnke

E hoje, em tempos ditos modernos: Salaka Djicke, 24 anos, moradora de Timbuktu, recebeu 95 chibatadas em praça pública por ser vista com um homem que não era o seu marido, um episódio que mostra o horror vivido sob domínio de militantes islâmicos


Curiosidade

Entre os anos de 1200 e 1600, Mali foi um dos maiores impérios da África Ocidental, produzindo quase metade do ouro no mundo no século 14. Até hoje, o país é o terceiro maior produtor mundial de ouro.

Ainda no século 14, um rei que governou o oeste da África e que vivia na região onde fica hoje o Mali teria sido o homem mais rico do planeta, segundo o site americano CelebrityNetworth.com, que reúne informações sobre fortunas de personalidades diversas.

Em valores reajustados segundo a inflação atual, a fortuna pessoal de Mansu Musa I valeria o equivalente a US$ 400 bilhões (R$ 815,3 bilhões) na ocasião de sua morte, em 1331. Nascido em 1280, Musa, que ganhou o título de Mansu, que significava "rei dos reis", foi o comandante do império mali por 25 anos. Seu reino englobava o território atualmente formado por Gana, Mali e regiões ao redor.

Musa foi um devoto muçulmano que ajudou a difundir a fé islâmica pela África e fez do império mali uma potência. Ele investiu fortemente na construção de mesquitas e escolas e fez da capital de seu império, Timbuktu, um centro de comércio, saber e peregrinação religiosa.

O império de Musa foi responsável pela produção de mais da metade do suprimento mundial de ouro e sal, de onde o governante tirou boa parte de sua grande fortuna. (hoje é um dos mais pobres do mundo) Fonte: Seis coisas que você precisa saber sobre o Mali


terça-feira, 25 de julho de 2017

Porquê o Veganismo é o Melhor Caminho para Todo Muçulmano

"Toda a sua vida você tem bebido e comido o sangue e a carne de animais sem perceber o que você tem feito. Você ama a carne e goza do assassinato. Se você tivesse alguma consciência ou qualquer senso de justiça, se você nascesse como um verdadeiro ser humano, você pensaria sobre isso. Deus está olhando para mim e para você. Amanhã Sua verdade e justiça investigarão isso. Você precisa entender." M. R. Bawa Muhaiyadeen, Venha ao Jardim Secreto: Contos Sufi da Sabedoria (Philadelphia: Fellowship Press, 1985) 26.
Não somos tão diferentes dos animais, eles também sentem dor, medo, solidão (sonham), comunicam-se, vivem em comunidades, e sob hierarquia ... Temos um ancestral em comum com os macacos, viemos todos do mesmo lugar e todos nós provaremos a morte um dia.

OS ANIMAIS NÃO QUEREM SER EXPLORADOS, COMIDOS, MALTRATADOS E VIVER CONTIDOS PARA SATISFAZER SEU PALADAR, NÃO SUA FOME OU NECESSIDADE DE SOBREVIVÊNCIA.

"Não existem seres alguns que andem sobre a terra, nem aves que voem, que não constituam nações semelhantes a vós. Nada omitimos no Livro; então, serão congregados ante seu Senhor."  6:38

Os animais também têm consciência de Deus

"Não reparas, acaso, em que tudo quanto há nos céus e na terra glorifica a Deus, inclusive os pássaros, ao estenderem as suas asas? Cada um está ciente do seu (modo de) orar e louvar. E Deus é Sabedor de tudo quanto fazem." 24:41

A 1500 anos atrás, quando o Profeta viveu (no deserto), não existiam supermercados, era impossível ter uma grande variedade de alimentos como temos hoje, e as pessoas não podiam escolher como nós, elas geralmente cultivavam tâmaras, oliveiras, criavam (em pequena escala) animais de pequeno porte, ou mesmo bois e vacas. No deserto, a criação de animais para o consumo era uma (necessidade), eles não criavam puramente pela vontade de comer, prazer ou gula, consumiam para sobreviver. O Profeta e seus companheiros, foram ensinados por Deus que, mesmo esses animais criados em pequena escala, para sobrevivência, e não para gula, deveriam ser mortos com o mínimo de dor possível e não deveriam ser maltratados. O animal sofria (pouco) e a natureza estava em equilíbrio. Existem muitos ahadith (para quem gosta dos ditos dos estudiosos) que demonstram que o Profeta era bom para os animais:

"Se alguém matar um pardal por esporte, o pardal clamará isso no dia do juízo," Senhor! Essa pessoa me matou em vão! Ele não me matou para qualquer propósito útil." Sunnan An Nasai

O Profeta, que a misericórdia e as bençãos de Deus estejam sobre ele, disse: "Quem matar um pardal ou qualquer coisa maior que isso sem causa, Deus o responsabilizará no dia do julgamento. Por Deus, o que é uma causa justa? Ele respondeu: Que só será permitido matar para comer, não apenas para cortar a cabeça e depois jogá-la fora." Ibid

"O Profeta Muhammad continuamente recomendou às pessoas que mostrem bondade. Ele proibiu a prática de cortar caudas e jubas dos cavalos, marcar animais e manter os cavalos selados desnecessariamente. Se o Profeta via qualquer animal sobrecarregado ou mal alimentado, ele falava suavemente ao proprietário: "Tema a Deus em seu tratamento com os animais". Saheeh Muslim e Abu Dawood

Hoje, isso não ocorre, existem vários estudos que demonstram como a agropecuária é um negócio sujo, que mata (pessoas também) devasta matas nativas, e os animais vivem vidas miseráveis, não só os adultos, mas os animais jovens e bebês também. E cada vez demandam mais e mais terras, mesmo as terras indígenas estão sendo engolidas pela ganancia deles. Tudo entra em colapso, a terra, as águas, nosso corpos que absorvem medicamentos, os mares, tudo.

"Ó humanos, desfrutai de tudo que está na terra que é halal legal e tayyib bom ..." 2:168

"Ó fiéis, não malverseis o bem que Deus permitiu e não transgridais, porque Ele não estima os transgressores." 5:87

"... comei e bebei da graça de Deus, e não cismeis na terra, causando corrupção." 2:60

"Ele foi Quem vos criou pomares, com plantas trepadeiras ou não, assim como as tamareiras, as sementeiras, com frutos de vários sabores, as oliveiras e as romãzeiras, semelhantes (em espécie) e diferentes (em variedade). Comei de seus frutos quando frutificarem, e pagai seu tributo, no dia da colheita, e não vos excedais, porque Deus não ama os perdulários." 6:141

"Desfrutai de todo o lícito com que vos agraciamos, mas não transgrida, porque a Minha abominação recairá sobre vós; aquele sobre quem recair a Minha abominação, estará verdadeiramente perdido." 20:81


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Veja o que Mohamed Ghilan, no seu texto The Halal Bubble and the Sunnah Imperative to Go Vegan, diz sobre o abate "halal":
Precisamos primeiro reconhecer o simples fato de que o que faz um produto "halal" é apenas dizer que ele é derivado de um animal permitido para o abate e para o consumo, e que foi abatido de acordo com decisões islâmicas. Mas, o abate halal não considera tecnicamente como o animal foi criado e tratado durante a vida. Alguns podem romantizar que a carne halal implica em um tratamento humano aos animais, de modo que eles só seriam abatidos quando estiverem prontos e que, recitando o nome de Deus, os acalma antes de serem sacrificados. Para esses indivíduos, a realidade está fora da ordem, porque essa noção romântica da Disney, com animais em fazendas felizes que se acalmam ao ouvir o nome de Deus, é ótima para os vídeos encenados do YouTube para compartilhar com amigos e colegas não muçulmanos no escritório. Mas, quando o grande número de animais que se criam por causa da nossa gula é considerado, torna-se bastante evidente que não existe tal tratamento humanizado, nem animais felizes ou uma recitação do nome de Deus que os acalma antes do abate. Em vez disso, há uma monstruosidade industrial que tem como objetivo sustentar o consumo da massa, em que os animais são abusados e o equilíbrio divino na natureza não só é transgredido, mas também pisoteado.
e mais
Para satisfazer a demanda por 10 bilhões de frangos por ano nos Estados Unidos, a agricultura industrial usa manipulação genética, antibióticos e hormônios de crescimento para produzir pássaros cada vez maiores. Este é um simples cálculo da economia. Quanto mais rápido você puder cultivar os pássaros, mais rápido você pode obter lucro, e quanto maior o pássaro, maior será o lucro. Quanto às galinhas, este processo leva a esqueletos fracos, bem como falhas cardíacas, hepáticas e renais porque essas estruturas vitais não conseguem acompanhar as taxas de crescimento rápido que essas aves são obrigadas a sustentar. Muitos acabam colapsando sob seu próprio peso. Além disso, elas são mantidas em galpões semi-escuros em gaiolas lotadas incapazes de mover ou abrir suas asas. Dado quão estressante este ambiente é para os pássaros, eles acabam arrancando suas próprias penas usando seus bicos. Para evitar isso, seus bicos são cortados usando uma lâmina quente e sem anestesia em um processo eufemisticamente chamado de "corte de bico" para não ofender sensibilidades. Depois de dois anos dessa existência miserável, as galinhas são eventualmente abatidas de forma bastante horrível, que envolve a captura de seis mil galinhas por hora, resultando em ossos quebrados, colocando-as em caixotes para serem transportados para o matadouro onde serão penduradas em grilhões antes de suas gargantas serem fendidas, então são mergulhadas em água fervente para a remoção das plumas enquanto muitas ainda estão conscientes.
Não só a carne dos animais, tudo, desde o leite aos ovos, tudo, envolve muito sofrimento e humilhação. Você pode ler o texto completo, aviso que é muito triste, no link acima.

 "Em verdade", o Alcorão afirma: "criamos o homem no melhor molde" (95: 4). A humanidade é descrita no Alcorão como "governante" (khalifah) de Deus na terra (2:30 6: 165, 35:39), a qual foi confiada à administração da manutenção do equilíbrio e da ordem da criação.

Veja aqui um resumo que fiz de vários estudos sobre como a alimentação animal prejudica a todos nós, o meio ambiente e é uma crueldade imensa aos animais. Não há tal coisa como abate/consumo de carne halal.


Al-Hafiz B.A. Masri, um dos principais estudiosos muçulmanos sobre a questão do bem-estar dos animais escreve:
"Se os animais foram submetidos a crueldades na sua reprodução, transporte, abate ou no seu bem-estar geral, a carne deles é considerada impura e ilegal para o consumo (Haram). É repugnante, carniça -algo como isso- (Al-Mujaththamah) Mesmo que estes animais tenham sido abatidos de maneira islâmica estrita, se lhes foram infligidas qualquer tipo de crueldade, sua carne ainda está proibida (Haram)".
O que o sheik Hamza Yusuf disse sobre a carne:
"A carne não é uma necessidade em shari'ah, nos velhos tempos a maioria dos muçulmanos costumava comer carne, se fossem ricos; nas sextas-feiras, se fossem da classe média; e apenas nos Eids, se fossem pobres".
"Então, tradicionalmente os muçulmanos eram semi-vegetarianos. O Profeta era, quer dizer, tecnicamente, o Profeta (SAWS) estava nessa categoria. Ele não era um comedor de carne. A maioria de suas refeições não tinha carne nelas. E a prova disso está claramente no Muwatta - quando Sayyidina Umar diz: "Cuidado com a carne, porque tem um vício como o vício do vinho". E a outro hadith no Muwatta chamado 'Bab al- Laham, o capítulo de laham, o capítulo da carne. Ambos são de Sayyidina Umar. Umar, durante sua khilafa, proibiu as pessoas de comerem carne por dois dias consecutivos. E o khalifa tem o direito de fazer isso. Ele não deixou as pessoas comerem carne todos os dias. Viu um homem comendo carne todos os dias, e disse: "Toda vez que você fica com fome você sai e compra carne? Certo? Em outras palavras, cada vez que seu nafs quer carne, você vai comprá-la?" Ele disse:" Sim, Amir al-Mumineen, ana qaram", que em árabe, 'qaram' significa 'Eu amo a carne'. Ele é um carnívoro, ele ama a carne. E Sayyidina Umar disse: "Seria melhor para você enrolar seu barriga um pouco para que outras pessoas possam comer".
E existem muitas fatwas aprovando o vegetarianismo. Veja aqui Fatwas on Vegetarianism

Vamos agora à casa da sabedoria ou ao Bayt Al-Hikma (através dos estudos Vegans In The Middle Ages | The History of Veganism Part Two por Emily), à era de ouro islâmica, que se acredita ter começado algum tempo entre 786 e 809 e terminou com o saque de Bagdá em 1258, embora alguns estudiosos coloquem o seu fim entre os Séculos XV e XVI. (George Saliba (1994), A History of Arabic Astronomy: Planetary Theories During the Golden Age of Islam) A era de ouro do Islã foi um momento em que o mundo muçulmano experimentou florescimento científico, cultural e econômico e a casa da sabedoria foi um importante centro intelectual durante esse período, trazendo uma grande parte da filosofia da cultura greco-romana através da tradução de todos os textos gregos científicos e filosóficos que estavam disponíveis. (Rosenthal, Franz The Classical Heritage in Islam)


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O próprio Alcorão, que é o livro sagrado do Islã, contém passagens que podem ser interpretadas como de acordo com ideais veganos, como dito nos versículos do início do texto 6:38 e 24:41

Há também vários versos que enfatizam o uso de frutas e vegetais para sustentar seres humanos e animais (6: 141, 16:67,  23:19) e clara evidência de que o sacrifício animal não é um meio para a absolvição ou a salvação:

"Sua carne e seu sangue não alcançam a Deus, mas sua devoção O atinge" 22:37.
"Sacrifício não significa que um animal inocente deva ser morto para saborearmos sua carne. Não há sacrifício nisso. Você não sacrificou nada, foi aquele pobre animal que perdeu a vida, ele se sacrificou, você não fez nada!. Pelo contrário, você está celebrando e apreciando sua carne. Onde está o sacrifício aí? Algumas pessoas argumentam que o  animal sendo nosso, nós o sacrificamos em nome de Deus. Totalmente falso. Você compra o animal antes do Eid, deixa ele em casa por alguns dias e depois o mata. Você não deu à luz a ele. Não há apego e, se não houve desapego, você não pode dizer que o sacrificou por Deus. Sacrifique algo que seja seu, sacrifique seu egoísmo, sacrifique sua ganância, sacrifique seu ego, e mais importante se sacrifique para defender o que é certo. Estas são as coisas que o senhor quer que você sacrifique, não um pobre animal. Mas, infelizmente, as pessoas distorceram todos os ensinamentos do Alcorão para vantagem própria. No final do dia, os empresários ganham dinheiro e são eles que glamorizam isso".
Existem também vários ahadith, que são coleções de relatos dos ensinamentos e ações de "Muhammad", enquanto o Alcorão teria sido transmitido a ele por Deus. O hadith é amplamente aceito como parte dos ensinamentos islâmicos. Embora as datas propostas de sua composição variem desde a vida de Muhammad até 200 anos após sua morte. Ulum al-Hadith by Ibn al-Salah

Vou listar alguns dos ahadiths mais impressionantes:

"Você deve tratar os animais gentilmente." (Hadith Muslim, 4: 2593)

"Uma boa ação feita a um animal é tão meritória como uma boa ação feita a um ser humano, enquanto um ato de crueldade para com um animal é tão ruim quanto um ato de crueldade para com um ser humano". (Hadith Mishkat, livro 6, Capítulo 7, 8: 178)

"Não permita que seus estômagos se tornem cemitérios!"

"Todas as criaturas são como uma família (ayal) de Deus: e ele ama mais aqueles que são os mais benéficos para sua família".

"Aquele que tem pena (mesmo) de um pardal e poupa sua vida, Deus terá misericórdia dele no dia do julgamento".

Muitos seguidores do sufismo, que é o ramo mais místico dentro do islã, exaltavam as virtudes do vegetarianismo. Um poeta do século 15, Kabir Sahib, simultaneamente reverenciado por Sufis, iogos, hindus e sikhs, e pertencente a todos, por sua própria iniciativa, escreveu sobre sua objeção ética de comer animais:

"Ó muçulmanos, te vejo jejuando durante o dia,
Mas então, para quebrar o seu jejum, você mata vacas à noite.
Em um extremo há devoção, mas no outro assassinato -
Como o senhor pode estar satisfeito?
Meu amigo, reze e corte a garganta da raiva
E abata os estragos da fúria cega,
Para aquele que abate as cinco paixões,
Luxúria, raiva, ganância, apego e orgulho
Certamente verá o senhor supremo cara a cara". (Kabir the Great Mystic by Isaac A. Ezekiel)

Kabir não foi o primeiro poeta a falar contra o consumo animal, no entanto. Entre a poesia ética e não religiosa da época medieval, podemos destacar o poeta cego Abul'Ala Al-Ma'arri (973-1058). Originalmente da Síria, ele passou algum tempo em Bagdá durante a era de ouro islâmica, criticou ferozmente os ensinamentos de qualquer religião, chamando-os de "fábula inventada pelos antigos" (Reynold Alleyne Nicholson, 1962, A Literary History of the Arabs) e foi, em suas próprias palavras, um "livre pensador pessimista". Ele perdeu a visão da varíola aos quatro anos de idade (Islam: A Way of Life by Philip Khuri Hitti) e começou sua vida como poeta em torno de 11 ou 12, muitas vezes escrevendo sarcasticamente contra o consumo de animais na poção mais vegana da idade média:
Você está doente na compreensão e na religião. Venha até mim, para que você possa ouvir as novidades da verdade.
Não coma injustamente do que a água desistiu, [i.e. Peixe] e não deseje como alimento a carne de animais abatidos,
Ou o branco (leite) das mães que pretendiam alimentar seus filhos, e não suas nobres senhoras.
E não aflija os pássaros desavisados tomando seus ovos; A injustiça é o pior dos crimes.
E poupe o mel que as abelhas recebem por suas indústrias de flores e plantas perfumadas;
Pois eles não o guardaram para que pertencessem a outros, nem o reuniu para dar em recompensa e presentes.
Lavo minhas mãos de tudo isso; E eu teria percebido o meu caminho antes que meus templos crescessem! [Ou seja, gostaria de descobrir isso antes que meu cabelo ficasse cinza ...] " (Studies in Islamic Poetry by R.A. Nicholson.)
"Uma alimentação compassiva leva a uma vida compassiva". Al-Ghassali (A.D. 1058–1111)
A mística sufí Hazrat Rabia Basra estava sempre cercada por animais quando meditava na floresta. Um dia, um discípulo se aproximou dela no bosque e os animais fugiram. Ele sentiu-se triste pelo fato e procurou seus conselhos sobre o assunto. Ela perguntou o que ele tinha comido naquele dia. Quando ele revelou que tinha comido gordura animal, Rabia explicou que os animais escapam daqueles que comem sua carne. Os Sufis como um grupo, no entanto, não defendem especificamente um modo de vida vegetariano. É deixado para cada indivíduo decidir se faz parte de sua vida espiritual ou não. (Vegetarianism in Islam - The Teaching of Rabbi Dr. Gabriel Cousens, parte do capítulo 19)

Quando a mente de um homem alcança um estado de plenitude na sabedoria, e quando ele alcança um estado em que nem em pensamento ele é capaz de machucar outra vida, então, ele também não prejudicará nada no exterior. Dentro, ele não pretende qualquer dano ou dor para qualquer outra vida. Fora, ele não fará nada prejudicial ou terá coragem de comer uma vida. Este é um estado de sabedoria, clareza e luz de Deus. Este é o sufismo. O homem é um animal tão perigoso, e é somente quando ele muda seu comportamento que ele se torna um bom homem, um verdadeiro ser humano. Quando ele se transforma em um bom homem, ele não pensa em matar ou ganhar vitória sobre outra vida. Ele não quer, nem mesmo em pensamento, estressar, angustiar, assediar ou arruinar outras vidas. Se ele não mata nada dentro, então ele não vai matar nada fora. (Vegetarianism in Islam - The Teaching of Rabbi Dr. Gabriel Cousens, parte do capítulo 19)

Conclusão: A carne não é proibida no islã, mas o animal não pode sofrer no processo, a natureza não pode ser destruída para abrir campo para a criação de gado, ou espécies terem sua existência ameaçada para consumo em larga escala (isso inclui a espécie que será usada para alimentação como outras que também não serão, mas sofrerão pela devastação do meio). Deve haver a necessidade (fome e sobrevivência, onde não existe a possibilidade de se alcançar outros tipos de alimentos). Como alcançar isso é impossível em larga escala, a carne, o leite, os ovos, qualquer coisa que for tirada do animal através de sua exploração desumana, se torna proibida para o consumo humano. Essa é minha fatwa. Tia Polly



segunda-feira, 3 de julho de 2017

Conheça a Brigada de Honra, uma campanha organizada para silenciar debates no Islã





Asra Q. Nomani, uma ex-repórter do Wall Street Journal, é autora do livro: “Standing alone: An American Woman’s Struggle for the Soul of Islam”.

“Você tem envergonhado a comunidade”, disse, para mim, um colega muçulmano em Morgantown, West Virginia, assim que nos sentamos em Panera Bread, em 2004. “Pare de escrever”.

Então aos 38, acabei por escrever um ensaio para a seção Outlook, do Washington Post, argumentando que deveria ser permitido às mulheres rezarem nos salões principais das mesquitas, e não segregadas em pequenos espaços, tal como ocorre na maioria das mesquitas disponíveis da América.

Como uma americana nascida na Índia, cresci em uma família tolerante, porém conservadora. Na mesquita de minha cidade natal, desobedeci as regras e rezei na área reservada aos homens, cerca de 20 metros atrás dos homens reunidos para as orações de ramadã.


Mais tarde, um tribunal formado por homens tentou me banir. Um ancião sugeriu que homens me cercassem na mesquita, para que eu me assustasse. Agora, o homem da mesa estava me mandando calar a boca. “Eu não pararei de escrever”, eu disse.

Foi a primeira vez que um colega muçulmano me pressionou a abster de criticas à forma como nossa fé vem sendo praticada. Mas na década passada, muitas tentativas de censura se tornaram comuns. Isto é, em grande parte, por causa do crescimento do poder e influência da “Brigada Ghairat”, um grupo de honra que tenta silenciar o debate sobre a ideologia extremista para proteger a imagem do Islã. Mesmo as críticas construtivas recebem respostas hediondas e desproporcionais.


A campanha começou, pelo menos em sua forma atual, há dez anos, em Meca – Arábia Saudita, quando a Organização de Cooperação Islâmica – uma “mini ONU”, abrangendo 56 países com população de maioria muçulmana, mais a Autoridade Palestina – encarregou o então secretário-geral Ekmeleddin Ihsanoglu de combater a islamofobia e projetar os “verdadeiros valores do Islã”. 

Durante a década passada, surgiu uma brigada de honra livre, parcialmente financiada e apoiada pela OCI através de conferências, relatórios e comunicados anuais. Ela é formada por políticos, diplomatas, escritores, acadêmicos, blogueiros e ativistas.

Em 2007, como parte desta cartilha, a OCI lançou o Observatório da Islamofobia, um grupo de vigilância com sede em Jidá, Arábia Saudita, com o objetivo de documentar lacunas contra a fé. Seu primeiro relatório, lançado no ano seguinte, reclamou que os desenhos controversos sobre o Profeta Muhammad, feitos por artistas e editores dinamarqueses, estavam contaminando “símbolos sagrados do islamismo” de forma insultante, ofensiva e desdenhosa.

A brigada de honra começou a responsabilizar (por islamofobia) acadêmicos, escritores e outros, incluindo o ex-comissário da polícia de Nova York Ray Kelly e administradores de uma escola católica na Grã-Bretanha, que afastou uma mãe que não quis remover o niqab (véu que cobre o rosto, exceto os olhos).

"A OIC inventou o movimento anti-Islamofobia", diz Zuhdi Jasser, presidente do Fórum Islâmico Americano para a Democracia e um alvo freqüente da brigada de honra. "Estes países... pensam que detém a comunidade muçulmana e todas as interpretações do Islã”.


Juntamente com o canal oficial da Brigada de Honra, surgiu uma comunidade autodenominada “Policiais de Blasfêmia”, de blogs anônimos como o Loonwatch.com e Ikhras.com, para um grande e disparado elenco de ativistas de mídias sociais – que começou a tentar controlar debates sobre o Islã. Este corpo (de comunicação) mais amplo rotula como islamofóbicos: peritos, jornalistas e outros que se atrevem a falar de ideologia extremista na religião. Seus alvos são tão grandes como o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu quanto pequenos como eu.

Os canais oficiais e não oficiais trabalham em conjunto: assediando, ameaçando e lutando contra muçulmanos reflexivos e não-muçulmanos em todos os lugares. Eles acreditam em uma verdade importante: o Islã, praticado da Malásia a Marrocos, é uma cultura patriarcal, baseada no pudor, que valoriza a honra e a preservação da dignidade, da família à praça pública. É por isso que o bullying, muitas vezes, trabalha para silenciar as críticas do extremismo islâmico.

"As brigadas de honra são ‘colecionadoras de feridas’. Eles são os ‘jihadistas de sofá’", diz Joe Navarro, um ex-agente especial de supervisão na unidade de análise comportamental do FBI. "Eles se reúnem e coletam as feridas e injustiças infligidas contra eles para justificar o que estão fazendo. A tragédia se une para o momento, mas o ódio se une por mais tempo”


Em uma troca de e-mails com a ONU, o embaixador da OIC negou que a organização tenta silenciar discussões de problemas em comunidades muçulmanas.

Os ataques estão em toda parte. Logo após o Observatório islamofobia tomar forma, o xeque Sabah Ahmed al-Sabah, o emir do Kuwait, resmungou sobre “caricaturas difamatórias de nosso Mestre e Profeta Muhammad” e filmes que maculam a imagem do Islã, de acordo com o primeiro relatório sobre islamofobia da OCI.

A OCI ajudou a dar origem a uma cultura de vitimização. Em discursos, blogs, artigos e entrevistas amplamente difundidos na imprensa muçulmana, sua brigada de honra tem como alvo especialistas, líderes políticos e escritores - do apresentador de TV Bill Maher ao autor ateu Richard Dawkins - por insultar o Islã.


O escritor Glenn Greenwald apoiou a campanha para estigmatizar escritores e pensadores, como o neurocientista e ateu Sam Harris, como tendo "animus anti-muçulmano" apenas por criticar o Islã.



“Esses companheiros viajantes tornaram cada vez mais desagradável - e até mesmo perigoso - discutir a ligação entre a violência muçulmana e idéias religiosas específicas, como jihad, martírio e blasfêmia”, diz Harris.

Percebendo o início desta tendência em dezembro de 2007, um diplomata dos Estados Unidos em Istambul despachou um telegrama para o Conselho Nacional de Segurança, a CIA, a Agência de Inteligência de Defesa e vários escritórios do Departamento de Estado. No telegrama dizia que o chefe da OIC chamou os dinamarqueses, que fizeram desenhos animados de Muhammad, de "extremistas da liberdade de expressão" e os equipara com a al-Qaeda.


A maioria das críticas ocorrem on-line, com blogueiros anônimos que visam os supostos islamofóbicos. Não muito tempo depois do telegrama, uma rede de blogueiros lançou LoonWatch, que tenta punir cristãos, judeus, hindus, ateus e outros muçulmanos. Os blogueiros rotularam a autora somaliana Ayaan Hirsi Ali, nascida muçulmana, mas hoje uma ateia oponente do extremismo islâmico, como uma "cruzada anti-muçulmana". Robert Spencer, um crítico do islã extremista, foi chamado de "pregador de ódio vicioso" e um "sociopata de Internet". 

Os insultos podem parecer semelhantes aos trolls da Internet e seus comentários "ácidos" que você pode encontrar em qualquer blog ou site de notícias. Mas eles são mais coordenados, assustadores e persistentes.


Um alvo proeminente dos ataques da brigada de honra foi Charlie Hebdo, o jornal francês onde vários funcionários foram mortos recentemente por extremistas islâmicos. 

De acordo com algumas contas, quando os assassinos massacraram os cartunistas, eles gritaram: "Nós vingamos o profeta Muhammad". 

A OCI denunciou os assassinatos, mas em um relatório de 2012, também condenou as "sátiras islamofóbicas" da revista. O então secretário-geral, Ihsanoglu, disse que o histórico da revista, em "atacar os sentimentos muçulmanos" era "um ato ultrajante de incitação ao ódio e Abuso da liberdade de expressão ".


Charlie Hebdo não é a única evidência de que, para os defensores autodesignados da fé, um chamado para matar a mensagem pode muito facilmente se tornar um plano para matar o mensageiro. Em 2011, um oficial de segurança das forças de segurança da província de Punjab, Paquistão, assassinou Salman Taseer, após ele defender uma mulher cristã da acusação de blasfêmia. No tribunal, apoiadores colocaram flores sobre os ombros do assassino, em sinal de aprovação.

Assassinos como esse dificilmente seriam radicalizados em um clima que permite debates sobre o islã em vez de atacar suas críticas.

Mas hoje, em tantas comunidades muçulmanas, preservar-se supera o pensamento crítico e a verdade. Por isso que a reforma interna do Islã é tão difícil.

Na minha experiência, se você tentar responsabilizar a comunidade, é mais provável que seja humilhado e intimidado a ser levado a sério.

Quando Rupert Murdoch recentemente twitou: "Talvez a maioria dos muçulmanos seja pacífica, mas até que eles reconheçam e destruam o crescente câncer jihadista, eles devem ser responsabilizados", foi criticado por dizer, indelicadamente, que todos os muçulmanos eram responsáveis pelos atos de alguns. Mas acredito que assumimos responsabilidade coletiva pelos problemas em nossas comunidades.

Depois da minha ameaçadora reunião em Panera Bread, continuei defendendo os direitos das mulheres na mesquita e entre quatro paredes. Entre outras coisas, argumentava que as mulheres muçulmanas têm direito ao orgasmo, uma intimidade muitas vezes negada em sociedades com tradição de mutilação genital feminina.

Então vieram as ameaças de morte.

No outono de 2004, meus pais e meu filho me buscaram depois de falar em uma conferência. "Alguém quer matá-la", disse meu pai de trás do volante da nossa Dodge Caravan de ouro, com sua voz trêmula. 

A ameaça de morte foi postada no Muslim WakeUp!, um progressivo website, hoje extinto. O ofensor disse ao FBI que ele iria parar de me assediar, e assim o fez. 

Os insultos mais vulgares na última década me chamaram de "puta da mídia sionista", uma "Casa muçulmana" e muitos outros insultos não publicáveis.

Dois anos atrás, Zainab Al-Suwaij, diretora executiva do Congresso Islâmico Americano, foi tão agredida por ataques on-line destinados a silenciá-la que experimentou uma resposta física do estresse e ansiedade que sofreu, e acabou em uma sala de emergência. Quando a conheci em seu escritório perto da Casa Branca, ela puxou as mangas para me mostrar as marcas deixadas pelas injeções intravenosas que a equipe do hospital havia administrado para obter os fluidos necessários.

“Os ataques simplesmente acabaram comigo”, disse Al-Suwaij, cansada.

Intimidar nesta intensidade realmente funciona. Os membros observadores do rebanho estão culturalmente condicionados a "evitar em envergonhar o Islã", de modo que "citando-os publicamente por esse pecado", muitas vezes tem o efeito desejado.

Os não-muçulmanos, entretanto, têm receio de serem rotulados de "islamofóbicos". 

Portanto, ataques contra ambos os grupos conseguem apagar o discurso civil. 
Eles fazem com que governos, escritores e especialistas caminhem sobre cascas de ovos, evitando discussões importantes.

Da minha parte, continuei escrevendo, pedindo aos muçulmanos americanos que erradicassem o extremismo de nossas comunidades e argumentando que certas passagens do Alcorão são muito antiquadas para nossos tempos. Como eu vejo em: "a obrigação de 'destacar-se firmemente pela justiça, mesmo que seja contra'" (ver Alcorão 4:135)... 


4:135 Ó fiéis, sede firmes em observardes a justiça, atuando de testemunhas, por amor a Deus, ainda que o testemunho seja contra vós mesmos, contra os vossos pais ou contra os vossos parentes, seja o acusado rico ou pobre, porque a Deus incumbe protegê-los. Portanto, não sigais os vossos caprichos, para não serdes injustos; e se falseardes o vosso testemunho ou vos recusardes a prestá-lo, sabei que Deus está bem inteirado de tudo quanto fazeis.

Seu correlato é "'o nosso mandato divino'... 'Veja algo, diga algo'". Mas muitas vezes, esta passagem é mal utilizada como uma justificativa para nos atacar.

Enquanto ainda temos um longo caminho a percorrer, eu tenho visto progresso desde que comecei a reivindicar os direitos das mulheres nas mesquitas e desafiar o extremismo que vi nas comunidades muçulmanas americanas.

Nossa mesquita em Morgantown, uma congregação majoritariamente masculina, elegeu sua primeira mulher presidente alguns anos atrás, e ela foi amplamente aceita como líder. Mas a maioria das mulheres ainda arrastam a porta dos fundos e reza em uma varanda separada.


Há quatro anos, o Conselho de Assuntos Públicos Muçulmanos, um grupo de advocacia, anunciou programas para discutir "tópicos censurados", como homossexualidade, casamento inter-religioso e extremismo. 

Recentemente, jovens líderes muçulmanos no norte da Virgínia iniciaram uma iniciativa para criar mesquitas que promovam a assimilação, a harmonia inter-religiosa e os direitos das mulheres. No final deste mês, um novo grupo, a Mesquita das Mulheres da América, realizará um serviço de oração liderado por mulheres em Los Angeles, um evento raro nas comunidades muçulmanas.

No próximo mês, a administração Obama realizará uma conferência sobre desafiar o extremismo violento, e o presidente Obama, no ano passado, pediu às comunidades muçulmanas que "rejeitem, de forma explícita, forte e consistente, a ideologia da al-Qaeda e do ISIL". 

Mas sua administração não está enquadrando o extremismo como um problema diretamente ligado ao islamismo. No mês passado, em contraste, o presidente egípcio Abdel Fatah al-Sissi reconheceu que havia um problema de ideologia no Islã e disse: "Precisamos revolucionar nossa religião".

Quando ouvi as palavras de Sissi, pensei: finalmente.

Além dessas declarações, porém, precisamos de uma nova interpretação da lei islâmica para mudar a cultura.

Isso exigiria rejeitar as oito escolas de pensamento religioso que dominam o mundo muçulmano sunita e xiita. Eu proponho um novo ijtihad, o conceito de pensamento crítico e elevando o auto-exame sobre o discurso, as leis e as regras tóxicas baseadas no pudor. 

Tal projeto poderia tirar o poder das mãos dos clérigos, políticos e especialistas do status quo e substituí-lo por uma interpretação progressiva da fé motivada não pela defesa da honra, mas atuando de forma honrável.

Artigo original em inglês, escrito por Asra Q. Nomani.

Tradução por Ana Lúcia Meschke

Meet the honor brigade, an organized campaign to silence debate on Islam

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Mesma Mensagem, Profetas Diferentes

O Alcorão usa palavras como "Torah" e "Injil" para designar os livros >ou mensagens (o que seria mais apropriado) que os Profetas anteriores a Muhammad receberam, mas você sabe o que essas palavras significam?

"Torah": direção, ensino, instrução ou doutrina.
"Injil": mensagem ou boa notícia.

Como Alcorão significa ler/recitar. 

Todos os Profetas receberam a mesma mensagem, mas em línguas diversas. 

O Profeta Muhammad não foi um inovador ("Dize-lhes (mais): Não sou um inovador entre os mensageiros ..." 46:9), ele, como os outros Profetas, seguiu o credo de Abrãao, (E revelamos-te isto, para que adotes o credo de Abraão ... 16:123) e sua mensagem foi recitada e lida em árabe porque o povo que iria recebê-la era árabe, nada demais sobre essa língua em particular. ("E não enviamos nenhum mensageiro exceto [falando] a língua de seu povo para afirmar claramente para eles [...]" 14: 4)

"Para Deus a religião é o Islã. E os adeptos do Livro ((só discordaram por inveja)), depois que a verdade lhes foi revelada ..." 3:19 

"Abraão jamais foi judeu ou cristão; foi, outrossim, monoteísta, muçulmano, e nunca se contou entre os idólatras ..." 3:67

"... é a confirmação das (revelações) anteriores ..." 10:37

"Prescreveu-vos o mesmo "deen" que havia instituído para Noé, a qual te revelamos, a qual havíamos recomendado a Abraão, a Moisés e a Jesus, ..." 42:13

"Tudo quanto te dizem já foi dito aos mensageiros que te precederam ..." 41:43

"E depois deles (profetas), enviamos Jesus, filho de Maria, corroborando a Torah que o precedeu; e lhe concedemos o Injil, que encerra orientação e luz, corroborante do que foi revelado na Tora e exortação para os tementes." 5:46

Jesus confirmou o que foi entregue antes dele, Muhammad confirmou o que foi entregue antes dele (todos a mesma mensagem)

Os livros que (hoje) chamamos Torah e Bíblia, segundo o Alcorão, não fazem mais parte do nosso deen porque estão adulterados, agora, os muçulmanos devem usar o Alcorão como critério, apenas o Alcorão, pois é um livro completo, totalmente detalhado, onde nada foi ocultado. 

"Pelo Livro escrito," 52:2, "Nada omitimos no Livro" 6:38, "O Livro, que é uma explanação de tudo ..." 16:89, "... o Livro totalmente detalhado? ..." 6:114, "... cujas palavras são imutáveis, ..." 18:27


quinta-feira, 29 de junho de 2017

O "HIJAB" COMO SÍMBOLO MISÓGINO E SEGREGATÓRIO

A palavra "hijab" é polissêmica, carregada de diversas significações. Segundo Mernissi (1987, p. 108-111), em árabe, a palavra "hijab", empregada para véu, significa literalmente 'cortina'. Para a autora, "[...] Essa cortina ou véu pode expressar uma dimensão espacial que delimita dois domínios distintos ou, mais simbolicamente, como o "hijab" dos sufis, o véu invisível, que impede o conhecimento divino". Existe também, ainda segundo a autora, o uso anatômico da palavra "hijab", que designa um limite e uma proteção ao mesmo tempo, daí "hijab al burkuriyya" (hijab da virgindade/hímen).

Mernissi, socióloga e muçulmana, aborda de forma distinta da maioria dos muçulmanos a questão do uso do "hijab". Para ela, o uso do "hijab" era uma simples questão de protocolo e de proteção, que comprometia apenas as mulheres do Profeta (que usavam uma cortina para conversar com homens que não eram parentes próximos) e que se expandiu às demais mulheres (como um véu na cabeça) até chegar a uma segregação sexual abrangente. 

A primeira revelação sobre o "hijab", ainda segundo Mernissi, veio a Maomé na sua noite de núpcias com Zenaib: os convidados não iam embora, e o Profeta querendo ficar a sós com sua nova esposa teria proferido o versículo 53 da sura 33 - "E se pedirem às mulheres do Profeta qualquer objeto, peçam-no através de uma cortina. E isso será mais puro para os vossos corações e para os dela". Uma atenta releitura deste versículo, segundo a autora, revela que as preocupações são de ordem da discrição: - Convidar os discípulos a terem maneiras corteses, como o de não entrar em uma casa sem pedir licença ou talvez não se demorar em ir embora. Vale lembrarmos que a mesquita era a casa do Profeta, os quartos eram contíguos, o que sugere que suas mulheres e ele não tinham muita privacidade. 

Para Mernissi, é somente pela análise do contexto social e histórico que se pode compreender por que Maomé sentiu a necessidade de proteger suas mulheres com o "hijab".

Como salienta a autora, no período em que os versículos sobre o "hijab" foram proferidos, os tempos eram de dificuldades, de guerras de expansão do islã que tentava impor-se a uma Arábia politeísta. Nesses primórdios do islã, as mulheres do Profeta estavam sendo perseguidas, assediadas por grupos que foram designados no Alcorão como hipócritas ou "munãfiqu n, pois, somente fingiam aceitar o islã. Havia a necessidade de serem protegidas e, desta forma, o uso do véu (mantas e vestes fora de casa) foi a solução encontrada. Dentro dessa visão da autora, é interessante lembramos que a primeira esposa do Profeta não usou o 'véu', pois ela morreu antes desse contexto de guerras expansionistas do islã. Para Mernissi, foi o califa Omar, um dos sucessores do Profeta e, segundo ela, um homem que não concordava com a gentileza e a atenção de Maomé para com as mulheres, quem estendeu o uso do véu para todas as mulheres com uma intenção diferente da primordial. 

Conforme Mernissi, a personalidade doce, calma e justa de Maomé não nos permite afirmar que tais versículos tenham sido deliberadamente proferidos, para produzir uma ruptura no espaço entre homens e mulheres, ruptura esta que terminou por tornar-se na atualidade uma questão polêmica. Mernissi ressalta que é necessário diferenciar o significado do uso do "hijab" no ano 5 da hégira (hijra), o que ele representava e o que ele representa hoje após várias interpretações ao longo dos séculos. 

Mernissi deixa claro que não é contra o uso do véu, desde que seja uma escolha, um livre arbítrio da mulher cobrir-se ou não. ( o ato de cobrir-se como mandamento religioso ou 'corânico' expressa coerção e nunca livre escolha) Ela não concorda e luta pelo fim da obrigatoriedade do uso do véu com forma de velar, de esconder determinados assuntos nos países árabes e barrar a democracia. Ela combate o fim do uso obrigatório do véu como política de Estados que utilizam as mulheres como atores passivos para divulgar sua mensagem dirigida aos dois sexos: "Calem-se e que não sejam vistos". 

Segundo Jomier (1992, p. 137), "[...] no início do século XX, a supressão do uso do véu passou a ser defendida por alguns países muçulmanos". Esclarece que, no Egito e Oriente Próximo, praticamente, não se usava mais o véu. Muitos países muçulmanos se alinharam a valores ocidentais. Ainda, segundo o autor, a partir de finais da década de 60, com o aparecimento dos movimentos fundamentalistas em reação ao processo de secularização, laicização já estabelecido em vários países islâmicos, o uso do véu começa a se fazer notar novamente. Com a revolução iraniana do aiatolá Khomeini em 1970, o uso do véu ressurge como símbolo forte, que marca a fronteira de uma identidade muçulmana. [...] Por outro lado, o uso do véu é, frequentemente, imposto pelas mãos de uma intolerância patriarca e misógina. Algumas facções de radicais fundamentalistas, como os talibãs no Afeganistão e os wahabistas na Arábia Saudita, manipulam o véu como uma arma de controle e exclusão da mulher, em um sentido muitas vezes oposto àquele proferido por Maomé. 

O véu tanto pode ser usado para simbolizar e reforçar o enclausuramento e a restrição à esfera privada, como pode, inclusive, ser apropriado pela mulher e empregado para negociar o seu lugar no espaço social. Neste sentido, ele permite às mulheres passarem da esfera doméstica para a esfera pública de maneira segura, e sem que haja um rompimento dramático com o passado ou com o islã. Para Pace (2005, p. 152) "o véu é um símbolo de pessoas 'protegidas' sob a tutela do poder masculino". Seria, segundo o autor, uma forma das mulheres poderem, de forma mais segura, mas não menos segregada, entrar em um espaço não reservado a elas e sim, aos homens. O espaço referido pelo autor é o da esfera pública, dos negócios, da guerra, e da política, criado e consolidado por uma tradição tribal e patriarcal para ser o 'reino' dos homens. 

Partes do estudo VÉUS SOBRE A RUA HALFELD: UM ESTUDO SOBRE AS MULHERES MUÇULMANAS DA MESQUITA DE JUIZ DE FORA E O USO DO VÉU. Por FAWZIA OLIVEIRA BAROS DA CUNHA

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Em outras perceptivas não concordo com o uso do véu porque:

1- As mulheres (apenas) não precisam de um véu na cabeça como uma 'identidade muçulmana', o islã não é uma identidade, são atos que tornam um mundo melhor e mais justo.
2- O véu não é um requisito corânico. A separação através de uma cortina (hijab) foi designado apenas as mulheres do Profeta para receberem homens em casa sem que a privacidade delas fosse prejudicada.
3- O uso de mantas e vestes para cobrir a nudez (que é sobre o que o Alcorão fala) foi sugerido para que as mulheres não fossem molestadas (sendo confundidas com escravas que não tinham proteção de um clã) hoje temos leis para nos proteger de assédios ou perseguições.
4- O véu e a cobertura do corpo inteiro, não impede agressão ou assédio; estupros também acontecem em países de maioria muçulmana; há mais de um milhão de prostitutas veladas no Paquistão. (Pense sobre isso)


quinta-feira, 22 de junho de 2017

Motivos pelos quais uma muçulmana feminista não deveria usar o véu (sem citar o Corão)

Uma dúvida ainda muito presente na mente de muitas muçulmanas é: "Por que devo parar de usar o véu?". Pois bem, decidi responder essa e outras questões que costumam ser levantadas, para esclarecer o porquê de nossa página defender o não-uso. Já adianto que possuo uma visão de mundo marxista, além de uma grande empatia pelo sofrimento das mulheres ao redor do mundo (motivos pelos quais eu mesma não uso mais o véu).

1) "Mas o feminismo não defende a liberdade individual?"

Existem várias vertentes feministas. O feminismo a qual se refere é o feminismo liberal, que está muito relacionado ao liberalismo socio-econômico, apesar de possuir algumas falas marxistas, e é o que mais está presente atualmente. Há vertentes, porém, que estão diretamente relacionadas ao marxismo, como o feminismo radical. O meio feminista islâmico costuma ter relação com o marxismo, porque acreditamos que o capitalismo lucra com o sofrimento do mundo, principalmente com a opressão das mulheres, e que apenas com a queda do capitalismo e com a reforma geral do islam as mulheres poderão ser livres de fato. Desse modo, o feminismo islâmico adere à visão de que a sociedade é composta de grupos sociais e não de indivíduos; e é claramente visível que, na sociedade islâmica, o grupo que mais sofre opressão é o das mulheres, que são obrigadas a usar o véu, caso contrário sofrerão severos castigos ou perseguidas por outros muçulmanos. 

2) "Mas, no Ocidente, as muçulmanas são proibidas de usar o véu e oprimidas pela sociedade por isso."

De fato. Mas devemos analisar o porquê de serem proibidas, antes de condenarmos quaisquer atitudes tomadas pelos governos (como o governo da França, que proibiu as mulheres de usarem o burkini).
Infelizmente, todos os governos ocidentais temem por suas seguranças nacionais devido aos ameaçadores ataques dos terroristas islâmicos. Assim, acabam tomando medidas preventórias, como proibir hijabistas de passarem pelos aeroportos com o véu ou de entrarem em bancos ou quaisquer lugares de risco usando-o (pois há muitas terroristas que escondem bombas por debaixo de todos os panos). Não importa se uma religião exige o seu uso ou não, todos precisam cumprir essas normas de segurança (inclusive as freiras e mulheres judias que cobrem os cabelos: se a polícia disser para tirar o véu, elas deverão tirar). Claro, o foco principal está nos muçulmanos, porque a ameaça vem dentro do meio <<islâmico>>, não do meio cristão ou judeu, por isso a cobrança para os muçulmanos é maior.

Levando em consideração que há uma série de argumentos que comprovam que o véu não é uma obrigação no islã (veja o link: Mais Sobre o Hijab), não há porquê as mulheres muçulmanas resistirem tanto para tirarem o véu. Entretanto, de forma alguma concordo com agressões físicas ou verbais contra as mulheres muçulmanas que o usam: para nós, do feminismo islâmico, a melhor maneira de pôr fim ao islamismo fundamentalista e opressor é por meio de revoluções e reformas ideológicas, nunca por meio de agressões ou opressões.

3) "O 'hijab' é uma forma de resistir aos fetiches do capitalismo em hiperssexualizar as mulheres!"

Sim, de fato. Existem feministas islâmicas, como a iraniana Hoda Katebi (do blog JooJoo Azad), que defendem o seu uso justamente por esse motivo. Todavia, vamos usar a visão marxista para contrapor seu uso: as mulheres islâmicas (mesmo as que vivem no Ocidente) não têm liberdade de escolha como supostamente dizem ter, pois se tiram o "hijab", são oprimidas dentro de sua própria comunidade. Defender o véu, chamando-o de feminista, é desmerecer toda a luta dos movimentos feministas que tentam dar fim ao hijab-compulsório nos países islâmicos mais conservadores (como Afeganistão, Irã, Iraque, Arábia Saudita, Paquistão, etc). Se você se diz marxista e usa o véu, tenha ciência que está ignorando o fato de que toda a classe das mulheres islâmicas são <<oprimidas>> pelo véu e que, antes de defender a "liberdade de escolha" de um indivíduo, devemos pôr fim ao sistema patriarcal opressor. Com o fim do "hijab" compulsório em <<todas>> as comunidades islâmicas do mundo, com o fim da opressão da mulher e com a reforma do islam, aí sim podemos pensar em liberdade de escolha; até lá, as mulheres muçulmanas devem somente focar na resistência contra todas as formas de opressão que foram inseridas no islam. Lembrando que existem várias formas de resistir à hipersexualização do capitalismo, basta apenas encontrar a que mais se identifique.

4) "De qualquer forma, ainda quero usar o véu."

Sinta-se a vontade, ninguém a está obrigando a nada. Expusemos nossos argumentos: se mesmo assim sente sua consciência limpa, nada podemos fazer a respeito. Recomendo, porém, que melhore sua empatia.

Muitas muçulmanas feministas (como Malala Youzafsai) utilizam o véu de maneira diferenciada, usando-o solto, mostrando os cabelos e pescoços, de modo que sejam facilmente removíveis, para lutarem contra o "hijab" compulsório sem perder a sensação de que estão descumprindo algum "mandamento" de Allah. Se optar por usar o véu desta maneira, não vejo problema (pois ainda assim está provocando os conservadores).

Caso queira mais argumentos, acesse o blog: hijab

Paz!

#Fátima


terça-feira, 20 de junho de 2017

Crianças “sushi” desafiam a divisão Sunita-Xiita

O enredo de um episódio de uma série satírica da TV saudita provocou um amplo debate nas mídias sociais. A trama: dois bebês trocados na maternidade de um hospital saudita e criados por duas famílias radicais - uma sunita, a outra xiita. Anos depois, o hospital descobre o erro e cada filho, agora um jovem rapaz, vai viver com sua verdadeira família. 

Quando os respectivos pais descobrem que seus filhos foram criados por uma família de seita “adversária”, desesperadamente, tentam mudar as suas percepções religiosas e convencê-los de que eles não estão seguindo a “doutrina correta”.

Selfie, a série, estrela o popular porém controverso ator comediante Nasser Al-Qasabi.
No Twitter, o comediante pediu ao seu público que "apertassem os cintos" antes do episódio ser mostrado. Posteriormente, foi elogiado pelos telespectadores sunitas e xiitas.

Embora as vertentes sunita e xiita compartilhem crenças fundamentais, elas diferem em práticas religiosas, rituais e organização. A intensidade da divisão difere de um país islâmico para outro.

No mundo, a maioria dos muçulmanos são sunitas. Xiitas, que representam cerca de 10% da população muçulmana, são maioria no Iraque, Irã e Bahrein. Eles também constituem uma grande população na Síria, Líbano e Arábia Saudita. E são grupos minoritários no Egito e Jordânia.

Crianças “sushi”

Casamentos ente sunitas e xiitas ilustram a "sensibilidade" dessa divisão sectária em alguns países. Embora tais casamentos sejam comuns em países com grandes população xiita como o Iraque e o Líbano, são raras no Egito e na Arábia Saudita, governada por sunitas.

O tema “criança sushi”, como são chamados os filhos de sunitas com xiitas, continua a ser delicado para muitos.

Arij Umran (nome fictício) falou à BBC sobre sua experiência como uma jovem saudita que nasceu de pai sunita e mãe xiita.
“Meus pais se conheceram e casaram no Iraq há 40 anos. Casamentos entre sunitas e xiitas, naquela época, não eram tão importantes. Entretanto, quando eles voltaram para a Arábia Saudita, começaram a enfrentar algumas dificuldades”.

Arij conta que, quando criança, tinha que manter, secretamente, a doutrina de sua mãe porque muitos amigos pararam de falar com ela quando descobriram que sua mãe era xiita. Ela diz que seus pais tinham a mente aberta e apoiavam suas escolhas. Quando perguntou qual doutrina deveria seguir, eles disseram: “É seu dever descobrir. Precisa ler, aprender e nos contar o que decidiu”.

A jornalista de monitoramento da BBC, Mina Al-Lami, que nasceu no Iraque, em um casamento entre sunita e xiita, diz que ter um pai de cada seita era e continua a ser comum no Iraque, principalmente em áreas diversificadas, como Bagdá, a capital.
“Vivendo lá, eu nem sabia que havia duas seitas diferentes até meus primeiros 20 anos”, diz Mina. “Enquanto casamentos entre sunitas e xiitas diminuíram no Iraque, a partir de 2003, com tensões sectárias, eles ainda não são incomuns”, ela acrescenta.

A questão também foi abordada pela cineasta britânico-iraquiana Hoda El Soudani, em seu documentário “Por que eu não posso ser um sushi?”.
A cineasta contou à BBC: “A minha principal intenção era abordar objetivamente tanto as questões mais importantes quanto sobre ser possível uma seita ter em relação à outra, e então, derrubar conceitos equivocados para que pontes possam ser construídas, uma vez que percebem que possuem muito em comum.”

Ela diz que estava motivada em abordar esse assunto delicado depois de “ver o que estava acontecendo em outros lugares como na Arábia Saudita, no Iêmen, no Iraque...”

"A questão não é porque há diferenças de opinião, mas sim por que essas diferenças levaram à violência e animosidade. Para mim, o conflito parece ser mais político do que religioso, embora possa estar escondido por trás da linguagem religiosa."

"As pessoas podem dizer que o filme está retratando uma imagem romantizada de uniões entre sunitas e xiitas, mas eu diria que se existiu uma vez, então ela pode existir novamente. Tenho certeza de que podemos ser menos arrogantes e aceitar mais a outra seita. Elas precisavam se lembrar de voltar às suas origens e abraçar a simplicidade de ser apenas muçulmano, independentemente da seita que se segue", acrescenta Hoda.





Tradução por Ana Lúcia Meschke